“O que o medo da vergonha e o medo da rejeição têm em comum? Para usar uma figura bíblica, os dois indicam que as pessoas são o nosso ídolo favorito.” Edward T. Welch
“Penso, logo existo!” a afirmação de Descartes é clara, e porque não dizer legítima. Afinal de contas a capacidade de pensar, raciocinar é inerente ao homem – tanto que o diferencia dos animais, e o capacita na busca por Deus. Mas se os pensamentos não estiverem baseados na verdade? Se o que te move são apenas pensamentos baseados em uma verdade distorcida, que desfigura as circunstâncias, as pessoas, os relacionamentos? O que seria o sinal de uma existência bem sucedida, de liberdade; pode, de forma inversa, aprisioná-lo em um ciclo de medo, angústia e solidão.
Não pensar no que é verdadeiro é a base do temor a homens. Depois disso, cada degrau da escada que o leva a ações, reações e omissões são bastante simples, embora nem sempre fáceis de reconhecer. “Pensar em tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Fp 4.8).
Praticar este versículo é fundamental para o pleno desenvolvimento da liberdade em Cristo, para tanto contamos com a intervenção divina e o planejamento prático para lidar com este problema – que engloba outras áreas como a necessidade de aceitação, fuga da humilhação, comparação, julgamento dos outros e auto-julgamento.
Temer faz parte da natureza humana – e é o que em muitos casos garante a sobrevivência. Mas me refiro essencialmente ao temor que interfere nas relações humanas. É a menina que só veste determinada roupa pensando no que as colegas irão dizer, ou no que os colegas irão pensar sobre ela. É o garoto que disposto a não ser o bobo da turma mente ou arrisca a própria vida. Ou um adulto, homem ou mulher, que passa a vida inteira lutando por status... sem verdadeiramente viver, em virtude do que os outros irão pensar. No outro lado da moeda, pessoas que ao invés de agirem, são omissas à vida. O temor ao que os outros estão pensando simplesmente as paralisa.
Essa perspectiva de ação e omissão também se volta ao relacionamento com Deus. E podemos afirmar que tal comportamento tem como ponto de partida um relacionamento não saudável com Deus. O resultado de uma vida egocêntrica, ao invés de cristocêntrica. A lógica do pensamento “Eles estão rindo de mim”, quando alguém passa por um grupo de pessoas – está focada no individuo, em um mundo que gira em torno deste individuo. E este é o primeiro alicerce que precisa ser quebrado, caso você partilhe deste sentimento. Embora sua impressão possa ser a expressão da verdade, o fato de pessoas estarem rindo de você não deveria lhe impactar tanto se você estivesse plenamente convicto de quem você é em Cristo, ou melhor, se você estivesse convicto de quem na verdade é Cristo.
A perspectiva deve estar em Cristo
Uma vez que você depositou sua vida nas mãos de Cristo – aceitando-o como seu Senhor e Salvador pessoal – você está capacitado para viver de forma a colocá-lo no centro, a tomar a decisão de negar-se a si mesmo. Assim, já não é mais você, mas Cristo. Uma decisão que precisa ser tomada de forma consciente – onde os holofotes estão na pessoa de Cristo, e não em você, independente das circunstâncias da sua vida. Sua preocupação está em colocar a Pessoa do Senhor Jesus Cristo em evidência através da sua vida.
Para vencer o temor a homens você precisará reconhecer que vive uma vida autocentrada – acreditando que o mundo gira em torno da sua vida e de seus problemas. Não negamos as tribulações, mas uma vida que tem como objetivo glorificar a Deus – deve ajustar o foco temendo a Deus e não a homens. Ou seja, é agir com os olhos no que Deus está pensando, e não no que os homens pensam ou deixam de pensar.
A sequência é lógica – para saber o que Deus pensa, e assim reconhecer o que deve direcionar minhas atitudes com relação aos outros e a mim mesmo – é preciso buscar a Deus em Sua Palavra. O conselho parece bastante simples, mas quantas horas você investe em sua vida devocional? Você – sozinho – buscando a orientação para a sua vida nas escrituras? E quantas você gasta na busca por pessoas, atrás de conselhos – “precisando das pessoas”? A resposta sincera para estes questionamentos irá ajudá-lo a verificar onde está o foco do seu coração. Em Deus, ou nas pessoas?
Necessidade de aceitação, fuga da humilhação (orgulho), comparação, julgamento dos outros e auto-julgamento são evidências de uma vida que tem o foco nas pessoas e não em Cristo. Assumimos determinado comportamento (moda, maneirismos, gírias...) na busca por aceitação. Não queremos ser deixados de lado. Nossas ações e omissões giram em torno deste sentimento que revela um coração orgulhoso, egoísta – que não quer ser humilhado, logo – deseja ser exaltado.
A comparação também não reflete a Cristo – e está relacionada ao julgamento dos outros e ao auto-julgamento. Não há como comparar sem julgar – e a comparação que leva ao temor a homens – geralmente está associada a uma visão distorcida sobre quem você é em Cristo e sobre quem as outras pessoas são em Cristo. Desenvolver um espírito grato pela maneira como Deus te fez e cuida de você é parte essencial para se temer a Deus.
Saber quem você é em Cristo torna-se essencial para viver uma vida de liberdade – sem “precisar das pessoas”, mas amando cada indivíduo e revelando Cristo.
Artigo para a disciplina Ética II, cursada em 2011 - Professor Alexandre Mendes